Agora o assunto parece ter saído do campo da discussão e entrado de vez na pauta política. Governo e Câmara chegaram a um acordo para avançar com o fim da escala 6×1, reduzindo a jornada semanal de 44 para 40 horas, mantendo os salários e estabelecendo dois dias obrigatórios de descanso por semana.
A votação na Comissão Especial está prevista para o dia 27 de maio. Se houver aprovação, o texto segue para o plenário já no dia seguinte e depois vai para o Senado. Pelo que vem sendo discutido, a intenção do governo é concluir isso ainda neste semestre — e sem uma transição longa para adaptação.
E esse talvez seja um dos pontos que mais preocupa quem está na operação das empresas: a possibilidade de a mudança entrar em vigor muito rápido.
O que está sendo discutido na prática
A PEC altera a Constituição para transformar o modelo 5×2 em padrão. Paralelamente, deve existir uma lei complementar justamente para tratar diferenças entre os setores, porque é evidente que cada operação funciona de um jeito.
Uma empresa de tecnologia consegue ter uma flexibilidade muito maior do que um supermercado, uma indústria ou um hospital, por exemplo.
As convenções coletivas também ganham importância nesse cenário, permitindo negociações específicas conforme a realidade de cada segmento.
Onde as empresas devem sentir mais impacto
Quem trabalha com operação contínua provavelmente já começou a fazer conta.
Comércio, logística, restaurantes, indústria, segurança, saúde, supermercados… qualquer negócio que depende de cobertura diária pode ter aumento relevante de custo operacional. Em muitos casos, reduzir jornada significa aumentar equipe, reorganizar turnos ou acelerar investimentos em automação.
E, sendo bem sincero, pequenas e médias empresas tendem a sentir isso de forma mais pesada, principalmente as que operam com margens apertadas e dependem muito de mão de obra presencial.
Ao mesmo tempo, empresas que já vêm investindo em tecnologia, processos e produtividade talvez consigam absorver essa mudança de forma menos traumática. Algumas já operam próximas desse modelo sem perceber.
O que eu faria agora se estivesse na gestão
Esperar a aprovação para começar a analisar talvez seja um erro.
Independentemente da posição de cada um sobre a proposta, o ideal é começar desde já a entender o impacto operacional e financeiro que isso pode gerar. Principalmente porque ninguém sabe ainda qual será o prazo real de adaptação.
Vale revisar escalas, avaliar necessidade de contratação, medir custo adicional de cobertura e entender onde processos podem ser otimizados.
Tem muita empresa que ainda funciona no limite operacional. E qualquer redução de carga horária pode gerar um efeito em cadeia importante.
Inclusive, existe um ponto que pouca gente comenta: negócios menores do interior, que já têm dificuldade para contratar, podem enfrentar um desafio ainda maior dependendo da atividade.
Minha leitura sobre o cenário
A discussão sobre redução de jornada não é nova e existem países e empresas que tiveram ganhos interessantes em produtividade, retenção e até redução de afastamentos.
Mas isso depende muito da forma como a implementação é feita.
Na prática, alguns setores conseguem se adaptar com relativa facilidade. Outros não têm essa flexibilidade toda. Por isso, as negociações coletivas provavelmente vão ter um papel decisivo daqui para frente.
No fim, o debate deixou de ser “se vai acontecer” e passou a ser “como isso vai funcionar na prática”.
E quem começar a entender os impactos antes tende a sofrer menos quando a mudança realmente chegar.
Reynaldo Lima Jr.
CEO — Lima Contabilidade