E agora? Estamos em 2026.
E sim , começou. Depois de anos falando sobre Reforma Tributária, fazendo simulações, participando de reuniões e tentando antecipar cenários, ela deixou de ser teoria. A Lei Complementar nº 214/2025 entrou em vigor. Não é mais debate acadêmico. Está refletindo nas notas fiscais emitidas todos os dias.
E isso muda o jogo.
Nas últimas semanas, aqui na Lima Contabilidade, praticamente todas as reuniões tocaram no mesmo ponto: “Mas, na prática, o que já mudou para mim?”
A pergunta é legítima.
Desde 1º de janeiro, passou a ser obrigatório destacar a CBS (0,9%) e o IBS (0,1%) nas notas fiscais. Total de 1%. Ainda é uma fase de testes, de calibragem do sistema. Financeiramente, o impacto agora é pequeno.
Operacionalmente, nem tanto.
Tivemos casos de empresas que precisaram atualizar sistema às pressas. Em outros, a integração com o município simplesmente não estava estável. Cada prefeitura está em um estágio diferente. Isso era esperado — mas gera ruído.
E enquanto os sistemas se ajustam, as redes sociais aceleram.
Nas últimas semanas vimos empresários cogitando mudar regime tributário, alterar contrato social e até reorganizar estrutura societária com base em vídeos de um minuto. Esse é o risco do momento: velocidade maior que análise.
A Lei Complementar trouxe diretrizes. Mas vários pontos ainda dependem de regulamentação. A questão das locações, por exemplo, já tem previsão de incidência, mas o formato exato das obrigações acessórias ainda carece de detalhamento. Tomar decisão estrutural agora, sem essa clareza, pode significar retrabalho depois.
O que temos orientado é simples: antes de qualquer movimento, simulação.
Simular cenário atual.
Simular cenário projetado.
Simular impacto no caixa.
Porque a próxima mudança relevante vem em 2027. A CBS substitui definitivamente PIS e Cofins. O IPI fica com alíquota zerada, mas não extinto. Parece detalhe técnico, mas não é. Tributo zerado pode voltar. Tributo extinto não volta.
Outro ponto que poucos estão olhando com atenção é o cálculo “por fora”. O imposto destacado muda a percepção de preço. Já fizemos simulações em que a margem aparente parecia saudável, mas, ao destacar corretamente o tributo, a rentabilidade real ficava muito mais apertada.
E há o split payment.
Esse talvez seja o ponto mais sensível para empresas com caixa ajustado. Se o imposto passa a ser liquidado automaticamente no momento do pagamento, aquele intervalo entre receber e recolher — que muitas empresas utilizam como respiro financeiro — deixa de existir.
Para quem opera no limite, isso exige reorganização imediata de fluxo.
Controle interno deixa de ser diferencial. Passa a ser condição de sobrevivência.
E quando falamos em controle, falamos de tecnologia. A reforma nasce digital. Quem ainda depende de planilhas isoladas ou processos manuais vai sentir o impacto mais cedo ou mais tarde.
Sobre o Simples Nacional: ele permanece. Mas a análise ficou mais complexa. Em algumas simulações recentes, empresas que tradicionalmente estavam confortáveis no regime passaram a ter dúvida quando consideramos o aproveitamento de créditos na cadeia com clientes do Lucro Real.
Não existe resposta padrão.
Existe contexto. Existe número. Existe estratégia.
A transição vai até 2032. As alíquotas ainda serão ajustadas. O cenário é gradual, mas contínuo. Quem ignora agora tende a correr depois.
Não é caso de desespero.
Mas definitivamente não é um momento para decisões baseadas em manchete ou promessa de “vantagem imediata”.
A Reforma Tributária não é um evento pontual. É um processo de adaptação.
E 2026 não é o fim da incerteza.
É o início da maturidade de quem decide atravessar esse período com método — e não com impulso.
Reynaldo Lima Jr
CEO Lima Contabilidade