
Quando a gente fala em Reforma Tributária, normalmente a conversa vai para IBS, CBS, alíquotas, créditos e toda aquela parte mais técnica.
Mas existe uma mudança que, na minha visão, merece bastante atenção e que ainda está sendo pouco discutida: a forma como as empresas vão decidir onde investir e onde manter suas operações.
Esse assunto apareceu recentemente em uma conversa com Rodrigo Espada, auditor fiscal e presidente da Febrafit e da FRESP, e trouxe uma questão que considero importante para os empresários: se o imposto deixar de ser o principal argumento para escolher onde uma empresa vai operar, o que passa a pesar nessa decisão?
A resposta provavelmente está em coisas que muitas empresas já deveriam considerar hoje, mas que durante anos acabaram ficando em segundo plano.
Durante muito tempo, estados e municípios usaram benefícios fiscais como ferramenta para atrair empresas.
Na prática, uma empresa podia aceitar ficar mais distante dos seus fornecedores ou do mercado consumidor porque a vantagem tributária compensava essa distância.
Era uma conta que fazia sentido dentro daquele modelo.
O problema é que, em alguns casos, o benefício fiscal acabava escondendo custos que estavam na operação: transporte, logística, estoque, prazo de entrega, deslocamento de funcionários e até dificuldade para encontrar mão de obra.
Com a Reforma Tributária, essa lógica começa a mudar.
A mudança para a tributação no destino é um dos pontos mais importantes da Reforma.
Com o novo modelo, a arrecadação passa gradualmente a considerar o local onde o consumo acontece, e não simplesmente onde a empresa está instalada.
Isso muda bastante a conversa.
Se antes uma empresa podia olhar para determinado estado ou município e pensar primeiro no benefício fiscal, daqui para frente será necessário olhar o conjunto da operação.
Quanto custa produzir ali?
Como é a logística?
Onde estão meus clientes?
Tenho mão de obra disponível?
A infraestrutura atende o que eu preciso?
São perguntas que sempre deveriam fazer parte dessa decisão. A diferença é que, com a redução da importância dos incentivos de origem, elas passam a ganhar ainda mais peso.
A mudança também atinge diretamente estados e municípios.
Durante anos, muitos municípios buscaram empresas oferecendo incentivos para que elas se instalassem em determinado território. Só que, com a tributação no destino, essa estratégia perde parte da força.
E aí surge um desafio importante para os gestores públicos.
Não basta mais simplesmente atrair uma empresa. É preciso criar condições para que pessoas e negócios permaneçam naquela cidade.
Infraestrutura, segurança, mobilidade, serviços públicos, qualidade de vida e até turismo passam a ter uma relação maior com a capacidade de um município de gerar e manter atividade econômica.
É uma mudança de lógica.
Também precisamos ter cuidado para não transformar essa mudança em uma conclusão simples demais.
A transição será longa. A substituição do ICMS e do ISS pelo IBS acontece gradualmente e vai até 2033.
Além disso, existem mecanismos de compensação e fundos previstos na própria reforma para reduzir os impactos sobre os entes que podem perder arrecadação durante esse processo.
Então não estamos falando de uma mudança que acontece de uma hora para outra.
Mas ela precisa entrar nas contas de quem está tomando decisões agora.
Esse talvez seja o principal ponto para os empresários.
Uma decisão de investimento não pode mais ser tomada olhando apenas para a fotografia de 2026.
Se estamos falando de construir uma fábrica, abrir um centro de distribuição ou mudar uma operação importante, estamos falando de investimentos que vão permanecer por muitos anos.
E a pergunta precisa ser: essa operação continua fazendo sentido quando a transição tributária terminar?
É aí que entra a necessidade de fazer simulações.
Não apenas da carga tributária, mas do custo total da operação.
Às vezes, uma localização que parece interessante hoje pode deixar de ser tão competitiva alguns anos depois. E o contrário também pode acontecer.
Aqui na Lima Contabilidade, temos reforçado que a Reforma Tributária não deve ser tratada apenas como um assunto do departamento fiscal.
Ela precisa entrar na conversa de planejamento da empresa.
Uma decisão de localização, expansão ou investimento precisa considerar tributação, logística, custos, mercado consumidor, fornecedores e estrutura operacional.
A Reforma está mudando uma parte importante dessa equação.
Durante muito tempo, o imposto ajudou a definir onde algumas empresas queriam estar.
Agora, essa decisão tende a voltar para uma pergunta mais simples:
onde a operação realmente funciona melhor?
E, para quem está tomando decisões de investimento hoje, esperar 2033 para descobrir a resposta pode sair caro.
Reynaldo Lima Jr.
CEO — Lima Contabilidade